Em 1723, foi publicado em Londres um dos documentos mais influentes da história fraternal: a Constituição de Anderson. Mais do que um simples regulamento, o texto marcou a transição definitiva da Maçonaria Operativa — ligada ao ofício prático da construção — para a Maçonaria Especulativa, voltada à formação moral, filosófica e intelectual de seus membros. Até hoje, o documento é considerado a base jurídica e histórica da Maçonaria como a conhecemos.
Quem foi James Anderson
James Anderson era pastor presbiteriano escocês, maçom, mestre de uma Loja e Grande Oficial da Loja de Londres, em Westminster. Em setembro de 1721, por incumbência da Grande Loja de Londres — fundada apenas quatro anos antes, em 1717 —, Anderson foi encarregado de escrever uma história dos maçons e sistematizar os antigos usos e costumes da Fraternidade.
O resultado desse trabalho foi publicado em 1723 sob o título "A Constituição dos Maçons Livres", conhecida posteriormente apenas como Constituição de Anderson. Curiosamente, o nome do autor não aparece na folha de rosto original — sua autoria consta apenas em um apêndice do livro.
O conteúdo e o propósito do documento
A Constituição reunia normas administrativas necessárias após a fundação da Primeira Grande Loja, combinando-as com os antigos costumes que já regiam os maçons operativos havia séculos. Entre seus pontos centrais estava a exigência de crença em um Ser Superior como condição para a prática maçônica — um critério que, segundo a tradição, define até hoje a chamada "regularidade maçônica".
O texto também estabeleceu princípios que se tornariam fundamentais para a estrutura fraternal moderna:
- A necessidade de convite formal e iniciação para o ingresso na Ordem
- A vinculação de cada Loja a uma Grande Loja ou Grande Oriente reconhecido
- O respeito aos juramentos e obrigações assumidos pelos membros
- A consolidação da história maçônica narrada desde suas origens até a época de sua publicação
"Estas Constituições de 1723 são o instrumento jurídico básico da moderna Maçonaria."
A chegada às Américas por meio de Benjamin Franklin
O alcance da Constituição de Anderson não se limitou à Inglaterra. Em 1734, o documento foi reeditado e reproduzido na Filadélfia por ninguém menos que Benjamin Franklin — maçom, polímata e um dos futuros pais fundadores dos Estados Unidos. Essa edição é considerada o primeiro livro maçônico impresso em solo americano, um marco na disseminação das ideias fraternais pelo Novo Mundo.
Revisões e desdobramentos históricos
Ao longo dos séculos, a Constituição original passou por revisões e deu origem a outros documentos correlatos:
- Ahiman Rezon (1756): constituição elaborada por Laurence Dermott para a Grande Loja dos "Antigos", que divergia da versão de Anderson principalmente em aspectos religiosos e metafísicos.
- Reforma de 1815: revisão feita para servir de instrumento jurídico à Grande Loja Unida da Inglaterra, formada em 1813 pela fusão entre "Modernos" e "Antigos".
Esses desdobramentos evidenciam como a Constituição de Anderson não foi um documento estático, mas uma base viva, capaz de se adaptar às transformações internas da Fraternidade ao longo dos séculos, sem perder sua função original de referência fundamental.
O legado até os dias atuais
Trezentos anos após sua publicação, a Constituição de Anderson continua sendo estudada, traduzida e comentada em todo o mundo. Sua importância não está apenas no conteúdo normativo, mas no papel simbólico que desempenha: representar a afirmação de uma comunidade sobre seu direito de livre associação e sua vontade de estruturar, de forma permanente, um corpo de princípios que atravessa gerações.
Ainda hoje, quando se fala em "regularidade maçônica" — o reconhecimento mútuo entre Lojas e Obediências ao redor do mundo — está se fazendo referência, direta ou indiretamente, aos preceitos lançados por James Anderson em 1723.
Fontes: Wikipédia, GLLP, No Esquadro, freemason.pt.